CASINHA DE BONECAS E OUTRAS BRINCADEIRAS
Gênero textual – Memórias Literárias
CASINHA DE BONECAS E OUTRAS BRINCADEIRAS
Quando eu era criança, tinha tantas amigas que, se quiséssemos viajar todas juntas, teria que ser em um tapete voador com um quilômetro de cumprimento. Como não existia televisão, computador, videogame e outras geringonças eletrônicas e, como eu só comecei a ir para escola com 12 anos, já que não era fácil, como hoje, sair do Mocambo e ir para Nazaré estudar, tínhamos muito tempo vago e aproveitávamos para viajar no nosso mundo imaginário.
Em cada final de semana, nos reuníamos em uma casa diferente e brincávamos, brincávamos, brincávamos... Nossa brincadeira preferida era a casinha de bonecas, bonecas feitas de pano e pedaços de madeira. Sem segundas intenções, os meninos também participavam de nossas brincadeiras, fingindo irem para o trabalho como autênticos chefes de família e, quando o sol se colocava no meio do céu, eles vinham almoçar e tinham que elogiar nossas comidas.
A comida era a única coisa de verdade naquele teatro infantil. Nossas mães nos davam mantimentos para fazermos um saboroso cozido e eu era a chefe da cozinha. Lembro-me de uma vez que uma das garotas trocou um dos ingredientes e foi aquele “deus nos acuda”, até que eu, a salvadora das panelas em apuros, cheguei e resolvi o problema.
Costumávamos organizar também os batizados das bonecas, que para nós eram tão válidos quanto um feito por João Batista e, realmente, nos considerávamos comadres.
Nos dias de sol, corríamos descalços por entre as plantações de banana, nas terras da fazenda Mocambo, a mais ou menos quatorze quilômetros de Nazaré, minha cidade querida. Nos divertíamos, também, banhando-nos no rio e imaginando como seria a sereia que acreditávamos morar lá nas profundezas.
À noite, eu e meus irmãos ficávamos esperando, após o jantar, as histórias que o papai contava, histórias do mocambo, que carrega em seu nome antigas lembranças da época em que já foi conhecido como o “refúgio de escravos na floresta”. Mas as histórias que mais me agradavam eram as da nossa família, as que o vovô contou para o meu pai e que já tinham sido contadas pelo meu bisavô, causos que hoje são contados por mim.
Recordar esse período da minha vida não foi só passar para o papel as minhas lembranças, foi também despertar sentimentos que estavam escondidos em meu coração.
Camila Gomes Conceição – 7ªB
Professora: Márcia Jesus de Almeida