RELATO DE PRÁTICA

 

TECENDO CONTOS: DA LEITURA À ESCRITURA

 Ionã Carqueijo Scarante   -   Nazaré-BA

 

      Sempre alimentei o desejo de transformar as minhas aulas de Língua Portuguesa em um espaço motivador para a formação do leitor-escritor, capaz de construir e compreender diversos gêneros textuais nas mais variadas situações comunicativas. Na condição de educadora, vejo na interação o fator básico de um trabalho pedagógico que propicie atividades de aprendizagem significativas. Como alguém que sempre trilhou pelo caminho das Letras, vejo a narrativa como uma atividade que integra a essência humana. Apenas o ser humano é capaz de apreender e criar histórias a partir das duas dimensões fundamentais de tempo e espaço, nas quais o ser humano se movimenta historicamente. Elas exercem um fascínio sobre homem. Aproveitei-me do misto de encantamento e magia que as narrativas proporcionam e adicionei-as ao meu desejo de investir na interação em sala de aula, como uma iluminação pedagógica. 

     Dentre as diversas possibilidades de trabalho com narrativas – crônicas, romances, novelas – escolhi o gênero conto. A minha escolha justifica-se pelo fato de o conto apresentar todos os elementos importantes que compõem uma narrativa. Além disso, trata-se de um gênero breve com uma estrutura passível de ser analisada no curto tempo de sala de aula. Tudo isso foi pensado vislumbrando a turma do 9º ano A do Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, localizado no Recôncavo Sul da Bahia, na pequena e histórica cidade de Nazaré.

     O trabalho começou com a leitura de fragmentos de contos apresentados no livro didático dos alunos. Após a leitura dos fragmentos, iniciamos uma conversa informal. Comentamos sobre os nossos contos preferidos, aqueles que conhecemos na infância, os autores conhecidos, o que sabiam a respeito do gênero. Em seguida, lemos o conto Metrô, de Edson Gabriel Garcia, e o conto A moça tecelã, de Marina Colassanti,  apresentados pelo livro didático. Essas leituras em sala de aula eram tão envolventes que nos sentimos dentro do metrô e até mesmo ajudando a moça tecelã a fiar e desfiar seu tecido. Destacamos alguns pontos importantes dos textos, como a visão de mundo por eles exposta, a linguagem e os recursos expressivos (o que faz com que o texto literário tenha uma linguagem subjetiva e plurissignificativa), a composição dos personagens e demais elementos que compõem a narrativa. Observamos os elementos estruturais do conto, focalizando, em especial, o enredo.  Nossos olhares voltaram-se por alguns momentos para a sua construção: a situação inicial, a complicação, o clímax e o desfecho.

         A nossa viagem continuou no próximo conto. Foi a vez de Presépio, de Carlos Drummond de Andrade.  A leitura desse conto fez os alunos dialogarem com Dasdores, uma adolescente apaixonada, sonhadora e cheia de atribulações domésticas. Esse diálogo entre os meninos e os textos, a partir do que percebem de semelhanças e dessemelhanças, a partir das emoções compartilhadas com as personagens, é um caminho metodológico; promove ampliação do conhecimento de mundo e a revivência de emoções.

      Na elaboração das atividades estive sempre preocupada em motivar os alunos, para que as atividades de leitura e escrita dos contos fossem desafiadoras, de modo a emocionar, divertir, informar e instruir. Além disso, precisava incentivá-los a escrever seus próprios textos.  Num desses momentos, propus a leitura de contos de um autor da nossa cidade, Lamartine Augusto Vieira. Apresentei-lhes dois contos do escritor: O compositor e o mar e A casa mal assombrada. Os alunos ficaram curiosos em relação ao processo criativo do escritor. A intenção era fazer com que eles percebessem como o autor trabalhou com os elementos que compõem o gênero conto.

      Propus aos alunos que escrevessem, individualmente, a primeira versão de um conto, que seria burilada até o final do processo. Os alunos escreveram textos mais próximos de um relato do que de um conto, pois pareciam muito fiéis à realidade. Nesse momento compreendi que o fato de o indivíduo ler muito um determinado gênero e até conhecer a sua estrutura, não faz dele um exímio escritor desse gênero. Frente às dificuldades observadas, resolvi retomar a curiosidade dos alunos em relação ao escritor Lamartine Augusto Vieira. Foi então que lhes revelei que nos encontraríamos com o escritor para conhecê-lo melhor como pessoa e como escritor de contos.

        Para essa atividade, dividi a sala em grupos e cada grupo elaborou questões para entrevistar o escritor. As perguntas se referiam à sua formação acadêmica, sobre o processo de criação de seus contos, sobre a construção das personagens, entre outras. O encontro aconteceu na biblioteca da escola que pertence ao escritor. A entrevista foi filmada, com a sua permissão e posteriormente os alunos assistiram ao vídeo em sala de aula, e fizerem anotações sobre o encontro. Acredito que essa conversa revelou para os alunos muitas coisas a respeito do processo de criação de contos e deve ter reverberado como estímulo para que os alunos se encorajassem a escrever sem receios. Percebi que a angústia que diziam sentir pela ausência de ideias foi, após o contato com o escritor, substituída pelo entendimento de que é na observação da realidade, no recurso à memória e no fluir da imaginação onde moram todos os contos que poderiam ser escritos.

          Diante do impacto que a entrevista causou nos alunos, quis experimentar com eles o processo de escrita coletiva de um conto, cujo tema seria o encontro com o escritor. O encontro tornou-se um mote, um ponto de partida para a construção do texto. Deveriam partir de pequenos detalhes percebidos e sugeridos durante a entrevista e liberar a imaginação. A escrita coletiva não foi nada fácil. Inicialmente dividi a sala em grupos e fiz um sorteio para ver qual equipe ficaria com a situação inicial, complicação, clímax ou desfecho. Vi naquela experimentação um grande equívoco. Como uma equipe escreveria o clímax sem ter conhecimento da complicação? Ou como escrever a complicação sem conhecer a situação inicial? E o desfecho?  Percebi, então, que deveríamos trabalhar todos juntos, formando um só grupo. Assim, estruturamos as personagens, escolhemos seus nomes e demais características; esboçamos o lugar em que as ações ocorreriam... Foram oito aulas de muita interação. Os alunos faziam inferências, davam palpites, e ao final da aula permaneciam discutindo a melhor forma de apresentar o clímax, de finalizar o conto... O conto produzido coletivamente foi intitulado Contos Augustos, como uma homenagem da turma ao autor entrevistado.

      A escrita não se deu como “num passe de mágica”. O texto foi escrito e reescrito, mesmo com a minha supervisão. Eu instigava sempre os alunos a expressarem suas opiniões, a escreverem parágrafos que pudessem compor a história. A cada aula construíamos e desconstruíamos o enredo, o comportamento das personagens, acrescentávamos mais detalhes ao cenário, revíamos o vocabulário, a pontuação, a ortografia... E o conto foi ganhando forma, cor, tom. Tudo isso graças ao diálogo constante que mantivemos todo o tempo.

       Ao retomarmos  as discussões sobre o texto individual, procurei mergulhar junto com eles na aventura com os personagens; a alguns ajudei na reconstrução do enredo, ora me mostrando e ora me escondendo, para deixá-los à vontade com a criatividade, tudo para lhes mostrar o prazer que a literatura proporciona, do quanto ela é capaz de nos levar a outros lugares e épocas.             

      Para a escolha dos trabalhos dos alunos que serão publicados, elenquei os seguintes critérios: clareza das ideias, presença de elementos do gênero conto, estrutura adequada dos parágrafos, originalidade, aspectos gerais de gramática e ortografia.

       E assim, a história continua... Os alunos estão retomando os contos que escreveram individualmente no início dessa nossa história, para reescrevê-los ou substituí-los, tomando como base a experiência da construção do conto coletivo. Agora, entre outras coisas, eles já sabem que quem conta um conto pode acrescentar um ponto...

 Conto Coletivo 8ªA

 O Carro fantasma (Conto de Rodrigo)

Projeto (por Ionã Scarante)

 

Colégio Estadual Gov. Luiz Viana Filho. Nazaré-BA